|
Café Vulcano
Diego Velasquez - A forja de Vulcano Vulcano é o deus do fogo na mitologia romana, aqui muito bem representado no seu ofício de ferreiro pela tela do pintor espanhol. Esta secção da Galeria CR351 pretende ser uma homenagem a todos aqueles que trabalham o metal das motas, autênticos deuses-artistas que forjam o ferro e as formas com a sua criatividade. São esses quem mais admiramos. Esta é também uma montra para os trabalhos desses preparadores que nos inspiram a criar e ter belas motas, para podermos continuar a correr em grande velocidade contra o tempo e o conformismo.
Pepo Rossel Já que começámos com uma tela de um pintor espanhol e madrileno, abrimos com um portfólio de um designer e preparador também espanhol e madrileno: Pepo Rossel e a sua casa vocacionada para as Ducati, marca que ele radicaliza no seu estúdio/oficina Radical Ducati. Aqui ficam alguns exemplos dos seus excelentes trabalhos. Para começar, a Carrallo Sport, uma Ducati 125 que foi inicialmente preparada para correr no Motogiro de Italia, uma prova de resistência. Nada melhor que uma imagem da peça de partida.
Como se percebe pelas imagens, toda a mota foi reconstruída com recurso a alguns acessórios modernos, mas essencialmente são peças clássicas de grande qualidade, como os travões dianteiros Grimeca de 180mm ou as forquilhas originais reconstruídas. Também os footpegs foram uma construção artesanal, uma réplica dos originais. Contemple-se.
Mas Pepo Rosell não trabalha só Ducs, até a uma pequena Honda Monkey se dedicou e, sob encomenda, faz qualquer mota para ver o cliente feliz. Eis um exemplo.
Uma mota cheia de "extras", como se dizia antigamente. - Chassis em Cromio Molibdeno. E, para terminar, um exercício em torno do classicismo Café Racer plantado numa Monster:
Ou então mais um exemplo de como uma Monster SR2 pode ser radicalizada até ficar "monstruosa" de potência e beleza, com muita raça, em suma:
Gracias, Pepo.
Wrenchmonkeys Agora, um prato forte mas gourmet. No design europeu, os escandinavos sempre se afirmaram pela singularidade austera, pelo minimalismo, elegância e depuração absoluta nas linhas. Conseguir o máximo de efeito com o mínimo de efeitos parece ter sido uma receita para o caminho directo ao sublime. Digamos que a contenção nórdica será o contraponto à exuberância italiana. Era inevitável que a tradição escolástica dinamarquesa também se reflectisse no design de motas. Não sendo fabricantes, é nas motas com grande incorporação de customização e criatividade, como as Café Racer, que todo o expoente do design danish se pode expressar. O atelier seguidamente apresentado é considerado por muitos como o que melhor conseguiu a síntese entre a tradição motocíclistica urbana do café racing inglês e o mais puro design modernista. Trata-se do grupo Wrenchmonkees, baseado em Copenhaga mas espalhando pela net a sua classe para todo o mundo. Este trabalho que abre o portfólio é realizado sobre uma base Honda CB750 Four e é considerada um exemplar mecânica e esteticamente difícil de superar. Exagero? Não. Já esteve exposta no Museu de Artes e Ofícios de Copenhaga e agora está à venda por aproximadamente 22.500€. Uma pechincha, se atendermos a que é o preço de uma banalíssima H-D de série.
O requinte e a atenção ao detalhe estão presentes em todos os pormenores da mota. Mas não substituiram o cuidado com a performance. Honda CB 750 Four: Motor reconstruído. Pintura personalizada, resistente ao calor, por Wrenchmonkeys (WM). Carburadores Khein 29. Filtros K&N. Potência de 80 HP. Escapes curtos personalizados, por WM. Forquilhas frontais de 41 mm. Amortecedores novos. Braço oscilante extendido. Amortecedores traseiros progressivos. Espaçadores em aço inox e peças de alumínio originais maquinadas a CNC. Jantes raiadas 3.50 x 16, frente; 3.50 x 16, atrás. Cablagens em malha de aço ABM.Travão traseiro Nissin, disco ISR, 1 êmbolo Tokico; dianteiro ABM, disco, Tokico 4 êmbolos frontais. Traseira, tail, assento, depósito de óleo debaixo da traseira, depósito CR, tubagens óleo em cobre, avanços, punhos foot pegs, luz traseira de LED, farol, arnês eléctrico - bateria 3,6 A, tudo desenhado e produzido por WM. ***** A moto Guzzi é das marcas mais procuradas pelos Café Racers. São motas que parecem ser feitas para levar cafeína, pedem. Ora se já são apetecíveis de série, ao passarem pelos WM tornam-se verdadeiramente irresistíveis depois de aplicado o respectivo lote de cafeína dinamarquesa.
O equipamento é sempre do melhor e mais esmerado: WM GUZZI ***** Criadores de motas que por vezes são uma síntese de estilos, a procura pela inovação faz-se dentro do respeito pelo classicismo mais requintado. Só mais alguns exemplos: BMW R 65/7
Triumph TR6 Bonneville
Kawasaki Z 1000 A
Yamaha SR 500
Kawasaki Z 750 B
Yamaha SR 500
Yamaha XS 500
São muito bonitas, as dinamarquesas, não são?
Confederate Atravessando o Atlântico - porque há óptimo cafeínanço em todos os continentes - vamos encontrar os confederados de Baton Rouge, a Confederate Motor Company - The Art of Rebellion. Fundada em 1991 por Matt Chambers, um visionário, definem a sua abordagem como um processo holístico de vanguarda, para celebrar a arte da rebelião. E cumprem. O que melhor talvez defina a arte destes empreendedores talvez seja a designação de esculturas mecânicas high brow. Algo de alta cultura, quer sob o ponto de vista artistico quer da engenharia mecânica. É um ensaísmo de gente arrojada e esclarecida sobre as matérias que abordam, um trabalho com a meticulosidade e rigor da melhor alta relojoaria movida a motor de combustão interna. A forma como exercem o seu mester é mesmo digna dos deuses, como Vulcano. As séries que produzem são sempre limitadas a cento e poucos exemplares, ao contrário dos preços, que são sempre pouco limitados, mas justificados pela beleza absoluta das peças e pelo facto de serem completamente manufacturadas. Serão Cafe Racers? Who cares? Vamos aos figurinos: P 120 Fighter
ENGINE: Radial twin / 120 cubic inches ***** Parecem simples extravagâncias? Não, são muito mais que isso. É levar aos limites do possível a construção artesanal com recurso aos melhores materiais, combinando tudo num exercício de estilo arrojado. F 131 Hellcat Combat
Power: Suspension:
Nicola Martini Aqui, sonhar é obrigatório e viajar é grátis, por isso voltamos à Europa e à referida exuberância italiana. De Hinckley para Verona e das mãos de Nicola Martini para o mundo, aquelas que são consideradas as Triumph mais bonitas e bem preparadas que se vêm nas pistas do Tropheo Thruxton ou nas mãos dos felizardos que lhe fazem encomendas. Il signore Martini, Matty para os amigos e Mr. Martini para o seu negócio, só trabalha a marca inglesa e já foi mesmo artigo da edição de verão 09 da revista oficial para os owners das Triumph. Merecido e tardio, dada a arte do mestre que esteve inclusivamente na génese da linha de acessórios Sixty8, quando impressionou e inspirou o director comercial Tue Mantoni com o uso de acrílicos e cores pop nas suas preparações. E foi precisamente o ano de 68 que trouxe a grande glória à Bonneville e as primeiras unidades preparadas para competição foram produzidas sob o nome Thruxton. É ao Matty que devemos também o corte com o formalismo da gama clássica através dessa incorporação de acessórios e materiais modernos, conferindo um look contemporâneo a motas que estavam presas a ao paradigma estético típico do conservadorismo britânico. Para isso contribuiu muito a transição da Thruxton Cup dos Estados Unidos para o Trofeo Thruxton em Itália. Já é tempo de vermos as motas, começando exactamente por um modelo concebido para correr nessa prova popular e carismática que a Triumph disputa entre si mesma. Triumph Thruxton Flash Back R
Triumph ROB Daytona
Super Cooper Racer 900
Deus ex-machina Voltando para outra parte do mundo, até ficarmos de pernas para o ar, chegamos à Austrália, Sidney, Camperdown, para nos encontrarmos com deus. Não é um encontro qualquer, ficarmos cara a cara com os criadores que trouxeram de vez uma nova abordagem à preparação de motas. Despojaram-se dos canônes clássicos, dos estereótipos, do simples revivalismo nostálgico e evoluíram para um conceito estético fashion e urbano mas, simultaneamente, herdeiro da melhor tradição Café Racer. Os Deus Ex Machina, que significa literalmente "Deus surgido da máquina", são a expressão mais contemporânea, consequente e liderante na preparação de motas num contexto assumidamente pós moderno. Tudo neles é feliz, e representa uma felicidade também ela afastada do presente mas reencarnando bem o período glorioso e exuberante da década de 60. Até a sua designação, oriunda do teatro grego clássico, é bem feliz e despudorada. Hoje, fazem as motas de amanhã, e são o epicentro da criatividade e referência incontornável no mundo Café Racer. Ao seu redor conseguiram congregar, num conceito integrado, artistas, colegas preparadores e outras inúmeras actividades que vão desde o lazer, como o surf, até roupa, um café, exposições, leilões de motas, etc.. Mas passemos às máquinas, às suas criações divinas de metal, um verdadeiro ex-libris do nosso Café Vulcano. Eles, só não inauguraram este Café para que só os mais persistentes, que até aqui chegaram, tivessem esta benesse.
Deus Salt Racer SR500 from Deus Cycles on Vimeo. Post Classic Race Meet - Eastern Creek Oct 2007 from Deus Cycles on Vimeo. Dry Lake Racing at the D.L.R.A Speed Week 2006 from Deus Cycles on Vimeo.
Daniel Delfour Talvez ninguém tenha feito ultimamente na Europa tantas Café Racer como os franceses. Talvez fruto das restrições de potência, ou mesmo por uma inusitada apetência geracional, o facto é que é em França que se edita a maior e melhor revista sobre o fenómeno e é lá também que existem por todo o lado apaixonados pela preparação de motas de culto inglesas e italianas. Essa quantidade deve-se aos preparadores serem os próprios donos - amadores, portanto, como manda a tradição -, o que fez emergir pessoas e máquinas de excepcional qualidade, para além, claro, de grandes e consagrados ateliers franceses, entre os quais a Mecatwin, talvez a casa mais conhecida internacionalmente. É precisamente um desses "amadores" que deve figurar aqui no Café Vulcano pela excepcional qualidade do seu trabalho e também porque simboliza o que de melhor tem a cena francesa a cafeínar motas: elegância, originalidade, elevação na performance e, sobretudo, um classicismo requintado caracteristicamente francês. A capital da região do Midi-Pyrineés, Toulouse, por um conjunto feliz de razões reúne um grande ambiente favorável a construtores e preparadores e, por consequência, aos café racers. É aí que trabalha Daniel Delfour, mais um desses "amadores", que só recentemente se dedicou em exclusivo às suas motas, quase todas da sua marca de paixão, a Norton, criando para isso a empresa Vintage Motorbykes. A arte, o requinte nos acabamentos, as peças originais, a manufactura, nada disso lhe é estranho. É que Delfour foi sempre, durante toda a sua vida de 56 anos, um luthier de violinos, pelo que o desenho, a forma e a criatividade sempre foram o seu modo de vida tendo-se limitado, na construção de peças e na forma final, a passar da nobreza das madeiras para a rudeza do metal. Nunca ouvimos os seus violinos, mas podemos contemplar a sinfonia de beleza que são as suas motas. Norton Commando 850 Triton (encomenda sob design de Vincent Prat & Frank Charriaut)
Norton Ala' Verda
|
|